Quais são os problemas nos relacionamentos?
- Marília Thomazin, Psicóloga Clínica.
- 27 de set. de 2017
- 6 min de leitura
Para estrear este espaço eu ainda estava ensaiando alguns temas e nada foi tão resolutivo quanto o contato de uma jornalista pedindo que eu respondesse sobre conflitos conjugais para uma pauta. Adorei a ideia, claro, é nisso que as pessoas estão interessadas, na dimensão de maior busca e sentido para a maioria: os relacionamentos amorosos. Difícil encontrar um, mais difícil manter? Não sei, mas trabalho sempre com a ideia de que quanto maior a consciência de si, maior a capacidade de se relacionar verdadeiramente. Como colocar a Psicologia Clínica a serviço do grande público e ajudar com algumas reflexões? Um pouco assim, levantando questões para pensarmos juntos. Vou deixar as perguntas que a Gabriela Guimarães (Uol) me fez e vou discorrendo cada aspecto como compreendo, a partir da abordagem da Psicologia Analítica. (Atualizando, aqui o link da matéria da Gabriela: https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/10/02/8-situacoes-do-relacionamento-que-podem-paraecer-um-problema-mas-nao-sao.htm ). No próximo texto vou falar somente de relacionamentos do ponto de vista psicológico. Dúvidas, complementos, reclamações, sugestões? Comente aqui e vamos fazer esse assunto girar. ;)
1. Quais as situações que podem parecer um problema no relacionamento, mas não são?
Isso é bastante particular, cada casal tem uma dinâmica específica, baseada em suas experiência e personalidades. Problemas comuns que aparecem como queixas no consultório variam e estão em torno de diferenças culturais e de visão de mundo, participação das famílias de origem na vida conjugal, falta ou grande demanda por sexo, segredos, traições, dificuldades de diálogo, etc. Cada casal lidará com as questões de maneiras diferentes, o que precisamos ter em mente é que nos relacionamos, na maior parte do tempo, através de "modelos" mentais que são bastante inconscientes para a maioria das pessoas, bastante alimentados pelas nossas histórias de vida e dos casamentos de nossos pais e isso pode facilitar ou dificultar a escolha do parceiro. Mas são as nossas imagens internas de homem e mulher, que Jung chamou de Anima e Animus, que nos levam a escolher este ou aquele parceiro (o homem possui uma imagem interna da mulher ideal e a mulher possui um homem ideal, essas imagens muito tem a ver com nossos pais ou modelos mais próximos e também ditam bastante a forma como nos vemos nas relações). De alguma forma, também sempre pressupomos que o outro é psiquicamente semelhante a nós, ou melhor, que o outro é semelhante à ideia de homem/ mulher que carregamos inconscientemente. Quando surge um problema e as pessoas estão inconscientes da forma como aquela escolha de parceiro foi feita, ou seja, sob quais idealizações, geralmente o entrave na solução é bem maior, pois não conseguimos ver o outro como ele é realmente. Desta forma, entendo o relacionamento como uma grande oportunidade de desenvolvimento psicológico e emocional, cada crise ou problema é uma chance de nos aprofundarmos em nós e descobrirmos nossas feridas, que são expostas através do espelho que é o outro. Quando começamos a perceber nossa participação em cada problema, fica mais fácil um diálogo e um amadurecimento da relação, mesmo que isso signifique um término.
2. Após um longo período de relacionamento o sexo pode acabar perdendo a intensidade? Isso é normal? O que o casal por fazer?
Sim, é bastante natural que o sexo mude de frequência, pois aquilo que se torna seguro, conquistado e confortável acaba não gerando mais tanta necessidade como nos primeiros anos da relação. Costumamos dizer que a intimidade, apesar de ser maravilhosa e o maior de todos os desejos, é a mãe da falta de desejo, pois instintivamente nós somos conquistadores, precisamos do perigo, da insegurança, daquele fiozinho de medo de perder. Não existe uma fórmula exata para o quanto é saudável ter sexo numa relação, isso depende de cada casal. O sexo também fala muito sobre a qualidade de comunicação entre os parceiros, sexo é comunicação afinal. Pode haver um problema maior por trás do declínio do sexo, mas pode ser apenas uma questão da rotina e intimidade. O casal que sente esse declínio como algo da rotina pode buscar formas de manter a proximidade com um pouco de mistério, fazendo um jogo de conquista durante o dia, por exemplo, mantendo um ritmo de sempre ter dias reservados para estarem a sós, buscando novas descobertas e atividades que alimentem o desejo de cada um e a descoberta inclusive do corpo do outro, muitas vezes o que é conhecido fica um pouco mecânico e é interessante poder entender o corpo como uma enorme zona erógena que pode ser estimulada de várias formas, esse exercício pode ajudar muito.
3. A atração entre o casal diminui? Isso pode ser um problema? Como lidar?
Muitas vezes diminui naturalmente por conta dessa intimidade. Pode ser um problema, na medida em que vão se afastando e deixando de alimentar a admiração, a conexão, é necessário buscar se lembrar de como eram no começo da relação, o que os atraía um no outro, o que essas pessoas buscavam juntas, como podem reviver isso.
4. Perceber as falhas do parceiro com mais frequência é natural? O que fazer se algo te incomodar?
Depende bastante, a ideia é que a relação se equilibre apesar das falhas de ambos, por isso o diálogo sincero é tão importante. As pessoas que tem pouca consciência de como se sentem, como funcionam, acabam projetando suas frustrações no outro. Muitas vezes o outro falha mas a reação do parceiro vai muito além daquela falha específica. Entender seus complexos, suas mágoas, suas formas de se relacionar na sua família de origem, suas crenças sobre relacionamento, compreender e nomear melhor seus sentimentos, aceitar as suas próprias falhas são certamente o melhor caminho para estar numa relação de forma mais limpa, digo limpa pensando que trazemos um monte de "sujeiras" e tranqueiras do nosso passado e isso dificulta muito algumas relações. Limpar o nosso terreno interno e criar um diálogo aberto conosco e com o parceiro são os melhores caminhos para relações mais saudáveis, com maior aceitação do outro e de si mesmo.
6. Querer sair com os amigos sem o parceiro é normal em um relacionamento? Isso pode afastá-los?
Querer sair com amigos sem o parceiro é necessário, fundamental e SAUDÁVEL. Quem era você antes dessa relação? Se essa pessoa desaparecesse hoje da sua vida, quem você seria? Nós somos seres sociais, é um grande perigo se isolar e perder suas referências pessoais. Antes de um casal, as pessoas são indivíduos com gostos, experiências e relações diferentes, é essa individualidade que nos garante estarmos inteiros para uma relação. As relações devem servir para agregar e multiplicar forças, prazeres, saberes, crescimento, se as pessoas se isolam e criam uma ilha na relação, acabam perdendo a diversidade e o senso de individualidade que marca cada personalidade. Quem é você sem a sua relação conjugal?
7. O casal precisa planejar o futuro juntos? Como deve ser feito?
É uma delícia planejar o futuro e não existe regra, o melhor é avaliar se o futuro planejado é o desejo dos dois, se os planos englobam as particularidades de cada um, se eles estarão juntos lado a lado ou alguém será a sombra do outro? Os desejos precisam estar equilibrados, cada um cede um pouco, mas as pessoas precisam sentir que aqueles planos também realizam os seus desejos individuais.
8. É possível fazer com que as conversas voltem a ser excitantes como no início?
É sempre possível tentar sim, excitação vem também de estar com quem nos enxerga e nos acolhe. As pessoas mudam, as conversas mudam, é importante manter o interesse por quem o outro está se tornando junto de você, sempre tentando (re)conhecer o outro.
9. O fato deles se tornarem muito amigos é um problema ou esperado e bom?
É maravilhoso ter um parceiro amigo, mas nem todos os seus amigos podem ser seus parceiros, certo? Avaliar o quê neste amigo o mantém interessante para continuar sendo seu parceiro/a, pois essa escolha não foi em vão e ela fala muito de nós mesmos.
10. O conceito de romantismo vai mudando com o passar do tempo e as saídas românticas acabam diminuindo? Combinar um dia de encontro romântico pode ajudar?
O romantismo é uma forma de manter as pessoas conectadas, engajadas naquela relação, tentando construir sempre uma parceria melhor e mais profunda. Combinar um dia romântico é bem importante, principalmente com os dias corridos como vivemos, a relação precisa ser tão prioridade do casal quanto as outras atividades. Os filhos, os problemas, o trabalho, a família, a saúde importam tanto quanto o que estamos construindo em nossas relações amorosas, alimentar o romantismo é também alimentar a dimensão prazerosa e erótica das ligações profundas da vida. Essas dimensões vão perdendo importância conforme as pessoas vão assumindo responsabilidades e, muitas vezes, é justamente a falta de uma troca genuína sem interesse e obrigação, do prazer de estar com o outro pelo simples prazer mesmo, de fazer coisas gostosas sem julgamento, essa falta que vai tirando a leveza da vida e colocando os parceiros contra a relação.






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